Golpe do diploma falso: brasileiros têm até R$ 40 mil em prejuízo com mestrados e doutorados de faculdade irregular no Paraguai

  • 09/08/2026
(Foto: Reprodução)
Faculdade do Paraguai é acusada de emitir diplomas falsos de mestrado e doutorado Uma fraude com diplomas de mestrado e doutorado enganou brasileiros que pagaram milhares de reais por cursos oferecidos por uma instituição que não existe legalmente no Paraguai. Batizada de Faculdade Interamericana de Ciências Sociais (FICS), ela não está registrada no Conselho Nacional de Ensino Superior do país. Documentos usados para comprovar a legalidade dos cursos tinham carimbos e assinaturas falsos, segundo autoridades paraguaias. Nas redes sociais, vídeos anunciavam cursos de pós-graduação por preços que pareciam atrativos. "Doutorado em ciências da educação. Matrícula, R$ 790. E 24 mensalidades de R$ 790", diziam. O material foi publicado por Radamese Lima, que se apresentava como professor e dizia trabalhar para uma assessoria acadêmica do Ceará. Ele afirmava ser parceiro da FICS e prometia ajudar pessoas que tinham o sonho de fazer mestrado ou doutorado. E garantia que os diplomas poderiam ser reconhecidos no Brasil. "Dá certo sim, amiga. Eu já fiz mais de 100 reconhecimentos", disse, em uma ligação feita pelo Fantástico. Ismael Fenner e Radamese Lima Reprodução/TV Globo O brasileiro Ismael Fenner é apontado como dono da FICS. Em reuniões gravadas, ele afirmava que a instituição tinha assessoria jurídica permanente no Paraguai e no Brasil. Mas, segundo o Ministério da Educação paraguaio, havia inconsistências graves nos documentos usados por Fenner para comprovar a legalidade dos cursos. "Os carimbos são falsos. As assinaturas são falsas. Os documentos são falsos", disse o promotor de Justiça Aldo Cantero Golmán. Com isso, os títulos de mestrado e doutorado emitidos pela instituição não têm validade. A sede da FICS em Assunção, capital do Paraguai, também levanta suspeitas: o imóvel estava vazio, sem funcionários, e tinha um comunicado do Ministério Público informando que havia sido alvo de busca e apreensão. Comunicado na sede da FICS, em Assunção, informa que imóvel foi alvo de busca e apreensão Reprodução/TV Globo Mesmo sem registro, Fenner continuou divulgando cursos até julho. Ele chegou a usar o nome do ISICS, uma instituição real e habilitada no Paraguai, mas que, segundo os registros oficiais, não pertence a ele. Christian Acevedo Alvarenga, verdadeiro dono do ISICS, denunciou Fenner por uso indevido da marca. 'A gente caiu direitinho' Uma das vítimas contou ao Fantástico que pagou R$ 23 mil por um mestrado em neuropsicologia. As aulas eram online, uma vez por semana e em português. Ela afirma que não tinha motivos para desconfiar da instituição. "O que fizeram com a gente foi algo muito bem orquestrado que não tinha como a gente desconfiar. A gente caiu direitinho", relatou. Outra aluna, que também perdeu R$ 23 mil, disse sentir vergonha de ter participado da instituição. "A gente tem vergonha, na verdade, de dizer que fez parte dessa instituição. E a gente sabe que não vai voltar". Faculdade Interamericana de Ciências Sociais (FICS) não está registrada no Conselho Nacional de Ensino Superior do Paraguai Reprodução/TV Globo Para tentar validar os diplomas no Brasil, os alunos também eram orientados sobre como cumprir uma exigência para títulos estrangeiros: comprovar uma passagem pelo exterior. "A gente vai lá, pega a imigração, a gente pega a hospedagem, a gente tira uma carteira de estudante sua. O Paraguai é um país muito rico de cultura, de museu. A gente aproveita e faz as duas coisas", dizia Radamese. As autoridades paraguaias descobriram a data de uma dessas viagens e chegaram de surpresa a um hotel em Assunção. "Havia 300 alunos brasileiros lá. Mas os documentos são falsos, e o senhor Fenner se utiliza disso para enganar as pessoas, captar alunos e cobrar pelos cursos", disse o promotor Aldo Cantero Golmán. Os alunos brasileiros disseram que estavam terminando cursos de doutorado em áreas como direito, saúde e educação. Afirmaram que teriam uma estadia de quatro dias para apresentar os trabalhos finais do curso, na única passagem deles pelo Paraguai desde o início das aulas. Os estudantes estão sendo considerados vítimas do esquema. O governo paraguaio disse que investiga a possível participação de funcionários públicos em fraudes no ensino superior e que iniciou um plano para modernizar a emissão de diplomas. Diplomas cancelados no Brasil Segundo o delegado Iasley Almeida, que conduz a investigação no Brasil, muitos dos alunos eram funcionários públicos. Nesses casos, existe o risco de eles terem de devolver valores recebidos por progressão funcional com base em diplomas falsos. Uma das vítimas terminou o falso mestrado em 2022 e teve o diploma reconhecido pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL). O título foi posteriormente cancelado, causando um prejuízo que passou dos R$ 40 mil. "Eu caí no golpe mesmo. Paralisei minha vida. Entrei num processo depressivo", contou. A UFAL cancelou 218 títulos da FICS e disse que foi induzida ao erro pela documentação falsa. Mas a plataforma Carolina Bori, usada para processos de reconhecimento no Brasil de diplomas estrangeiros, tem mais de 800 títulos da FICS validados por outras instituições. O delegado Bráulio Galloni, da Polícia Federal, disse que instituições de ensino brasileiras que tinham revalidado os diplomas foram avisadas de que a FICS não era regular no Paraguai. Ele orientou as instituições brasileiras a iniciarem os processos para cassar os diplomas. O Ministério da Educação do Brasil informou que atua na gestão da plataforma Carolina Bori e que notifica as instituições, mas disse que só pode adotar medidas definitivas após a conclusão dos processos de apuração. Investigação Ismael Fenner teve a prisão decretada pelas autoridades paraguaias e cumpre prisão domiciliar em Assunção depois de pagar uma fiança de quase R$ 900 mil. No Brasil, ele já havia sido investigado em 2021 por falsificação de diplomas. O caso foi encerrado em 2025 depois de um acordo de não persecução penal com o Ministério Público. Recentemente, Fenner foi flagrado sacando R$ 700 mil em Foz do Iguaçu. O dinheiro foi apreendido por suspeita de evasão de divisas. A defesa disse que o valor veio da venda de um imóvel. Por causa dos diplomas da FICS, ele também foi indiciado pela Polícia Federal brasileira por apresentar documentos falsos. Faculdade Interamericana de Ciências Sociais (FICS) não está registrada no Conselho Nacional de Ensino Superior do Paraguai Reprodução/TV Globo Em nota, Fenner afirmou ser vítima de perseguição de empresários do setor educacional que estariam usando o aparelho estatal paraguaio para destruir sua reputação. A defesa sustentou que ele é o verdadeiro dono do ISICS e que existe uma disputa judicial pela marca. Mas admitiu que os direitos de Fenner sobre o instituto estão atualmente suspensos. A advogada da FICS no Brasil também tenta reverter o cancelamento dos diplomas na UFAL, alegando falta de direito de defesa. Sobre a devolução do dinheiro aos alunos, ela disse que a questão depende dos processos judiciais e das investigações criminais. Radamese também está sendo investigado pela polícia. Ele afirmou que não tem responsabilidade jurídica sobre a FICS. O Fantástico apurou que ao menos outras 13 faculdades estrangeiras prometem diplomas de pós-graduação para brasileiros de forma parecida com a da FICS. A maioria fica nos Estados Unidos. Segundo o delegado Franco Perazzoni, os grupos envolvidos mudam de instituição conforme aumenta a fiscalização das autoridades. "A paixão dele é dinheiro", afirmou. Para uma das vítimas, porém, o prejuízo vai muito além do dinheiro perdido. "A FICS, o Fenner, precisa ser responsabilizada pelas pessoas que eles destruíram a vida".

FONTE: https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2026/08/09/golpe-do-diploma-falso-brasileiros-pagam-ate-r-23-mil-por-mestrados-e-doutorados-de-faculdade-irregular-no-paraguai.ghtml


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